Meu interesse pela cozinha começou muito cedo. Quando criança, lembro-me do pavor de minha avó materna, que me criou, quando me via mexendo em suas panelas. Acho que tinha um pouco mais de 10 anos, e sofria muito quando minha avó me proibia de chegar perto do fogão com medo de que eu me queimasse.

Porém, como se dizia naquela época, eu não era "gente". E quando minha avó não estava, meu lugar preferido era a cozinha, com suas panelas e seu fogão. Morava em Cuiabá e passava quase todas as férias e feriados nos sítios da família, onde comecei de verdade (e com permissão, é claro) a ajudar a fazer deliciosos doces de leite e de goiaba. Os tachos eram enormes, a colher de pau quase do meu tamanho. Tinha de usar toda a minha força para conseguir mexer. Lembro-me como se fosse hoje do prazer que sentia, aquilo realmente me deixava muito feliz. Depois dos doces prontos, eu me esbaldava e me lambuzava toda com as raspas do tacho.

Depois dessa época, nunca mais fiquei longe das panelas. Aos 17 anos me casei e fui morar na casa do meu sogro. Tinha uma cozinha enorme, toda equipada, e foi nela que comecei a praticar com mais liberdade meus dons culinários. Todos saíam para trabalhar e eu corria a cozinha. Com muita humildade, posso dizer que eu arrasava, mas também contava com a ajuda de D. Benta, que me ensinou muita coisa.

A cozinha é um lugar onde sempre me senti muito segura. Para quem acredita em reencarnação, devo ter sido cozinheira em outra vida. Contudo, é claro que nesta vida comecei fazendo muita besteira, cheguei a explodir uma panela de pressão com feijão. Foi terrível, acho que até hoje o feijão deve estar incrustado na laje daquela casa... Já inutilizei caçarolas, mas nunca queimei arroz; bem, no final, o almoço ou o jantar sempre acabavam saindo.

Dois meses depois de casada fazia divinamente arroz, feijão, farofa, purê de batatas e até strogonoff. Foi uma fase maravilhosa da minha vida. Sem perceber, eu fui me apaixonando e tendo os meus próprios segredos culinários, comecei também a arrancar suspiros e elogios da minha família, para espanto de minha avó...

Com o nascimento da minha primeira filha, Irene, precisei reduzir meus “estágios” na cozinha, mas nunca consegui ficar mais do que um dia longe do fogão. Casei muito cedo e tinha muitas obrigações; trabalhava e estudava, mas conseguia dividir bem meu tempo: curtia minha filha, minha família e, nos momentos que restavam, ia para a cozinha praticar, testar novas receitas.

 

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